domingo, 9 de setembro de 2012

A Emília era racista?




Hoje fiquei pasmo ao ler a notícia do jornal "O Globo", de que o livro "Caçadas de Pedrinho" de Monteiro Lobato, iria ser levado a uma audiência no Supremo Tribunal Federal por ter sido denunciado como uma obra literária que incita o racismo. 

A denúncia foi feita pelo "técnico em gestão educacional" Antonio Gomes da Costa Neto à Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em relação à trechos como os que se referem à personagem Tia Nastácia como "preta" (como “Lá é isso é — resmungou a preta, pendurando o beiço”). 

Na minha opinião, o senhor Antonio Gomes deveria procurar algo melhor para fazer - dentro das atribuições de sua função de técnico em gestão educacional - para valorizar mais as pessoas da raça negra, como por exemplo recorrer ao governo para que abra mais escolas e universidades em áreas carentes, por exemplo, onde parte significativa da população é negra e não tem acesso a boas escolas e universidades. 

Isso com certeza seria muito mais útil que ficar perseguindo um livro escrito há mais de 80 anos quando o modo de se referir aos negros era este mesmo, e isso não era racismo, era apenas o modo de falar. Até minha avó falava assim de seus conhecidos da raça negra, e não era falado como algo racista, era apenas a maneira habitual de se referir.

O que este senhor esta fazendo é um racismo ao contrário. Se fosse um personagem branco em que monteiro Lobato escrevesse “Lá isso é — resmungou a BRANCA, pendurando o beiço mais branco ainda" Isso teria então que ser denunciado como racismo contra os brancos, não?

Ou se fosse "Lá isso é - resmungou a CHINESA, apertando os olhos mais ainda do que já eram", isso é racismo contra os chineses, n'est pas?

No facebook, choveram comentários a este artigo do Globo, e um rapaz negro muito indignado, saiu postando várias mensagens apoiando que o livro fosse censurado, e que era racista mesmo, e alertou ameaçador: "racistas,  corram para as montanhas! O mundo ta ficando pequeno para vocês!!" 

Uma outra pessoa postou que os livros do "Sitio" fazem "uma defesa engajada das ideias eugenistas". Para quem não sabe, a eugenia foi um conceito criado pelo cientista inglês Francis Galton, que apregoava que a melhora da qualidade de uma determinada espécie poderia ser obtida através da seleção artificial dos indivíduos com as melhores qualidades físicas e mentais para que só fossem gerados filhos com as mesmas qualidades

Este conceito foi amplamente usado por para justificar as ações de extermínio ou esterilização de indivíduos considerados inferiores. O Nazismo usou e abusou deste conceito. Mas aqui no Brasil também houve uns espasmos dessa droga de ciência inútil. Em 1918 foi criada uma tal de "Sociedade Eugênica de São Paulo", e em 1931 o "Comitê Central de Eugenismo", que entre outras pérolas do racismo, apregoava "o fim da imigração de não-brancos", e "prestigiar e auxiliar as iniciativas científicas ou humanitárias de caráter eugenista que sejam dignas de consideração". Uma respeitada publicação oficial, a "Revista Brasileira de Enfermagem", apoiava as idéias eugenistas, mas era difícil distinguir até que ponto estes brasileiros eugenistas se referiam a "raças", ou apenas a indivíduos com doenças físicas ou mentais como "não desejáveis" para a procriação.    

Voltando à vaca fria, lá no post do Globo já estavam chovendo comentários taxando a censura ao livro de Lobato "ridícula", e alguns começando a reclamar do tal rapaz que apoiava a censura, o rapaz postou que " Só a classe media branca que chama o empregado negro de "neguinho" e pessoas de cabelo crespo de "cabelo ruim" vem aqui bravejar que (o livro de Monteiro Lobato) não é racista!!" 

Nessa hora eu não me contive e postei a seguinte pergunta para o rapaz: "então se chamar um empregado negro de "neguinho" é racista, então é racista também chamar um empregado loiro de 'alemão' ou 'russo' (como muita gente chama pessoas loiras)? O que me diz?"

O rapaz não respondeu, mas continuou discutindo com os outros que postavam impropérios contra ele e sua posição isolada de apoiar a censura do "Caçadas de Pedrinho".

Não nego que exista racismo no Brasil, claro que existe. Não tão forte e sectário quanto nos Estados Unidos, mas existe. Agora o que é ridículo nessa história é querer censurar um livro escrito há quase 100 anos, que faz parte da história da literatura brasileira, por uma "caça as bruxas racistas". Conheço muito bem os livros do Sitio do Picapau, não me lembro de ter visto nada racista ou eugenista. Ou então eu sou muito burro e nunca percebi que realmente a Dona Benta, a Narizinho, Emilia e o Visconde de Sabugosa viam a Tia Nastácia, o Saci e o Tio Barnabé como seres inferiores. Então vou pegar todos os livros do Sítio e ler tudo de novo pra ver se isso é verdade.

De repente eu pulei alguma frase eugenista dita pelo Visconde de Sabugosa. Como ele era o intelectual da estória, com certeza devia ser um admirador enrustido do Francis Galton. Antes ele tivesse voltado a ser um rélis sabugo de milho de novo. Assim servia de comida para o Rabicó e não saia por aí falando bobagens sobre a Tia Nastácia, coitada. 

Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/09/08/monteiro-lobato-no-banco-dos-reus-464280.asp

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