Artigos, crônicas, notícias e links sobre música, cultura, história, e variedades do Brasil e do mundo. Blog de Roberto Carelli, músico e produtor carioca.
Abaixo, transcrevo um artigo escrito por um leitor do Jornal O Globo e publicado pelo mesmo jornal.
Concordo com tudo que o leitor escreve. É a explicação de como se manipula a imagem da cidade para parecer que ela é só Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra. Porque só existe ciclovia na orla? As pessoas que moram na Zona Norte, em Jacarepaguá, na Ilha, Campo Grande, Santa Cruz...não precisam de ciclovia?
Justamente os bairros mais pobres são os que mais precisam de ciclovias ligando-os ao Centro, que é aonde a maioria dos seus habitantes trabalham. Assim não seriam mais obrigados a pegar (nem pagar) ônibus ou trens superlotados todo dia nem enfrentarem engarrafamentos gigantes na Avenida Brasil (a foto acima foi tirada em uma rua da China, onde milhões de habitantes usam todo dia a bicicleta como principal meio de transporte)
SEGUE O ARTIGO:
'Rio, a capital da bicicleta?'
Existem umas coisas assim, inventadas num de repente, que me dão um susto. Como o Rio pode ser, ou passar a ser, assim numa frase e num instante, a "capital da bicicleta"? Como posso não me espantar? Logo eu, um ciclista insistente que usa a bicicleta para se deslocar umas vezes por necessidade, outras por lazer em fim de semana, e sempre passo por situações bastante arriscadas e muito perigosas. Como posso crer que isso vai seguir adiante e num milagre passarei a pedalar pela capital da bicicleta? Se o Rio vai passar a ser a capital da bicicleta, vê-se por aí que ninguém sabe e ninguém foi avisado.
Primeiro vamos considerar Rio de Janeiro como um todo, ou só se governa para a Orla da Zona Sul? Nosso Rio tem Botafogo, Bairro de Fátima, Centro, Tijuca, Méier, Madureira, São Cristóvão... E digo uma coisa: andar de bicicleta por esses bairros, como ando às vezes, é uma loucura.
Se a administração da cidade quiser, imagino que num prazo de 5 anos se obterá algum resultado positivo e real nessa direção e com custo baixo, mas serão necessário primeiro uns anúncios na mídia educando motoristas a respeito, porque o caso não são só os ciclistas e sim os motoristas, principalmente os dos ônibus (para variar...). Esses passam por mim a 20 cm sem diminuir a velocidade em nada. E ai do ciclista que cometer um erro nessas horas. É muitíssimo arriscado, só se gostando muito de andar de bicicleta.
Andar pelas calçadas ou pelas beiras da pista? Não é permitido andar de bicicleta pelas calçadas, mas é o que se faz na maioria das vezes, com o máximo de cuidado possível, já que pelas ruas é loucura absoluta. Muito arriscado, não recomendo para ninguém.
A prefeitura faz obras e obras e nenhuma ciclovia pela Zona Norte. Agora mesmo refez grande parte da calçada colada ao metrô da Praça da Bandeira e poderia muito bem iniciar a implantação de uma ciclovia junto à linha do trem que iria do Centro aos bairros do subúrbio. Refizeram todas as calçadas da Tijuca, na ruas Uruguai e Conde de Bonfim, e poderiam implantar aí também uma ciclovia na beirada, e nada foi feito. A estrada que vai de Cabo Frio a Búzios foi feita com uma ciclovia ao lado, apenas desenhada no chão e com sinalização, coisa baratíssima, e aqui no Rio nunca vi isso em nenhum lugar.
Portanto, gente, para o Rio ser capital da bicicleta só demos um passinho de nada, falta praticamente tudo. Abraços e boas pedaladas, mas com muito cuidado!
Este artigo foi escrito por um leitor do Jornal O Globo.
Antes do computador passar a ser um objeto que faz parte de qualquer residência, o que deixava as crianças em êxtase eram essas coisas que voce está assistindo no video. Nada de internet, celular, Iphone, Itoken, Ipod, nada disso existia. Videogame em casa a garotada só começou a ter lá pros idos de 82. Odyssey, logo depois Atari, tudo isso apareceu nessa época. Antes disso, na década de 70 as casas de "fliper" só tinham maquinas de Pinball. Se bem que nos Estados Unidos eu já havia experimentado uns telejogos dois anos antes, e lá eu vi que muitos brinquedos que a Estrela lançava no Brasil já tinham sido lançados primeiro nos States, como por exemplo o "Genius", que foi lançado em 1978 com o nome de "Simon", e chegou no Brasil somente em 1982. Olha o Genius aqui embaixo. Tá lembrando agora?
Dessas coisas que aparecem no video, eu me lembro do: - Pega vareta - ioiô da coca-cola (era doido pra ter a coleção inteira)
- Ki-suco (gôsto muito artificial, não é a toa que saiu de mercado)
- Atari (joguei muito dos 12 aos 13 anos, até enjoar)
- Daniel Azulay (Alô, alô, turma de casa! <assobio>)
- Canetinha Sylvapen (não tinha uma criança da 1ª a 5ª série do colégio que não tinha algumas dessas canetinhas)
As fitas da Basf e o Manual do Escoteiro Mirim eu tenho até hoje
Também me lembro de outras coisas que não aparecem nesse video, como os famigerados tênis Conga
Eu nunca quis usar esses tênis, achava horríveis, tênis de pobre, qualquer pivete de rua tinha...mas vendo a foto agora 30 anos depois, não tem como negar que essa coisa "linda" foi uma das marcas dos anos 70, usado por crianças e adultos.
Carrinho Bate-Bumbo
Movido a pilha, ele andava e ao mesmo tempo tocava uma batucada engraçada com um mini bumbo na frente do carro e dois pratinhos na frente do motorista
Autoban e Motoban
Ferrorama
Autoban, Motoban e Ferrorama Três brinquedos clássicos dos anos 70. O Autoban era uma pista para montar, por onde corriam carrinhos (ambulancia, carro da policia, e ônibus). Os carrinhos subiam uma rampa puxados por uma esteira de borracha movida a pilha e depois desciam em uma pista única. O Motobam era parecido, só que eram mini-motos, e cada um tinha sua pista, assim as crianças podiam apostar corrida cada um com sua moto. O Ferrorama era uma linha de trem a pilha com vários modelos e configurações para voce
montar. Além desses, tenho até hoje a Ferrovia (A estação da Mina), que
tinha um trenzinho de pilha que puxa um vagão com pedras preciosas por uma
rampa para descarregá-las em um elevador que joga a pedras no outro vagão que
está esperando lá embaixo. Outro brinquedo bem menos famoso, mas que também gostei muito na época eram os Ligeirinhos Stelko, uns bonequinhos que andavam automaticamente por uma cidade de brinquedo..
Falcon
Eu tinha o da primeira versão que não mexia os olhos. Fiquei maluco pra que a minha mãe me desse esse do anúncio à esquerda, que foi lançado depois. O Falcon com "olhos de águia" mexia os olhos para a esquerda e direita, conforme a gente mexia em uma alavanca atrás da cabeça do boneco. Depois, lançaram um inimigo espacial do Falcon, o "Torak" (anúncio acima à direita)
Carrinhos Matchbox
Uns carrinhos miniatura legalzinhos, abriam a porta, o capô. Com centenas e centenas de modelos disponiveis, eu tinha um furgão de transporte de cavalos que vinha inclusive com dois cavalinhos brancos dentro (foto acima)
Super Trunfo
Esse baralho foi lançado pela Grow nos anos 70, e até hoje é vendido com novas versões. No jogo, a gente competia confrontando as qualidades dos carros que cada um tinha na mão. Por exemplo, o que tivesse um carro que tivesse a maior velocidade máxima, ou a maior capacidade de aceleração, ganhava do adversário.
Album de Figurinhas Flash Gordon
Em 1980, esse filme americano foi lançado no Brasil com uma novidade: era o primeiro filme em dolby stereo lançado no país. Eu adorei o filme, e logo comprei o álbum, que tinha um detalhe: voce não comprava as figurinhas. Para conseguí-las, voce tinha que juntar palitos de picolé da Kibon e trocar por envelopes com as figurinhas. Resultado: eu e as outras crianças passamos dias e dias na praia de Copacabana catando palito de picolé na areia pra trocar por figurinhas.
Teco-Teco Sonoro
Era um avião movido a pilha, ele não voava, mas andava e fazia algum barulho, que nem me lembro mais qual era, porque na verdade desfrutei desse brinquedo por muito pouco tempo...Eu tinha uns 7 anos e caí na besteira de ir mergulhar na Praia de Copacabana com o meu Teco Teco novinho, que eu tinha acabado de ganhar da minha mãe, veio uma onda grande e PAF, arrancou da minha mão, e meu brinquedo desapareceu no meio da água...Como eu chorei nesse dia.
Tivoli Park da Lagoa
O parque da minha infância, desgraçadamente foi fechado. Algumas coisas inesquecíveis para a gente que frequentou o Tivoli: Casa das Bruxas, Montanha Russa Espacial (na foto), Konga (a mulher que virava gorila), Amor Expresso, Pista Veloz, Cinema 180º, Festival do Sorvetão 82, Trem Fantasma (tenho até fotos que eu tirei dentro do Trem Fantasma do Frankstein, Múmia, Crocodilo que avança mordendo, Caveira da Foice, Esqueleto que levanta... acho que não existe ninguem no Brasil com essas imagens , nem o Orlando Orfei, dono do Tivoli...qualquer dia eu posto aqui)
Kikos Marinhos
Decepcionante...Os anúncios prometiam estarem vendendo ovos de seres humanóides marinhos que nasciam dentro d'água, com braços e pernas como no desenho à direita. Quando meu pai comprou e me deu, veio uma cartela com um saquinho de papel, com uma espécie de pó dentro. Botei num aquário e fiquei dias esperando eles nascerem, 1 semana depois só nasceram umas larvinhas microscópicas, dificílimos de se verem a olho nú, pois não eram muito maiores que um grão de poeira. Olhando com uma lupa, o que eu vi foi uma espécie de animalzinho branco que parecia um camarão microscópico de pernas ultra-curtas... se fosse hoje em dia, é claro que a empresa que lançou essa enganação seria processada pela Defesa do Consumidor
Pomby
Essa é parente dos Kikos Marinhos...Outra enganação de trouxa. Foi anunciada como uma pomba mecânica movida a corda, que saia voando que nem uma pomba de verdade. Mais especificamente uma manivela no rabo do bicho, ao ser girada, dava corda e as asas da Pomby começavam a bater....mas cadê que a maldita voava?
Kit Kit e Destaque e Brinque
Revistas que voce destacava partes e montava brinquedos de papel. Me lembro que o primeiro que montei foi o Kit Kit do Banco Itaú.
Transfer
Voce riscava em cima da revista um plástico tipo acetato que tinha uns desenhos, e os desenhos grudavam na paisagem da revista. Assim voce montava um cenário, distribuindo os personagens e objetos da forma como preferisse.
Mônica
O primeiro brinquedo que me lembro de ter tido foi o boneco da Mônica. Olha eu aí na foto com 3 meses de idade, junto com ela e seus dentões! (hahaha) O outro boneco da direita é o Alvinho da Luluzinha (não era nada parecido com o da história em quadrinhos). Esses bonecos foram lançados em 1970. A estrela também lançou o boneco do Cebolinha, mas esse eu não tive.
Laboratório Químico Juvenil
Lançado pela "Brinquedos Guaporé", na época uma das únicas fábricas que realmente produzia brinquedos criados exclusivamente no Brasil. Alias, quanto ao lançamento deste brinquedo, é interessante ler este documento sobre qual a sua verdadeira origem.
Este brinquedo -muito educativo - era um mini laboratório que ensinava a fazer experiencias químicas. Acredite se quiser, tenho até hoje tudo guardado comigo: a caixa, os tubos de ensaio, e as pequenas garrafas de plastico com as substâncias qúimicas: acído sulfúrico, fenolftaleina, cloreto de sódio, ferrocianeto de potássio, etc, etc...
Duas experiencias que eu gostava de fazer eram: 1) o “Sangue do Diabo” (fenolftaleína + amônia) que era um liquido vermelho que depois se transformava em transparente, com a evaporação da amônia, e 2) a "Tinta Invisível", em que voce preparava uma mistura química, molhava com ela um prego ou algo pontudo e escrevia num papel, só que como a mistura era transparente, não aparecia nada, até voce aquecer bem o papel por baixo com uma chama, e a mistura enegrecia, aparecendo então o que voce escreveu. O problema é que as vezes a chama aquecia bem até demais, e o papel acabava pegando fogo, e o resultado da experiencia era um punhado de cinzas fumegantes voando dentro da sua casa, para fúria da sua familia. E VOCÊ? SE LEMBRA DE ALGO MARCANTE DA SUA INFÂNCIA NOS ANOS 70 e 80? POSTE SEU COMENTÁRIO ME CONTANDO.
O nascer do sol e o poente deixam uma claridade que permanece por quase duas horas (respectivamente antes e depois), devido à camadas de poeira que cobrem a atmosfera de Marte, e dão essa aparência cinza enevoada ao céu.
No video acima Tetê Espíndola, com sua voz super aguda, canta Sertaneja, canção de Renê Bittencourt que foi sucesso em 1939 na voz de Orlando Silva, que conheci através da minha avó Gildette.
No video abaixo, Tetê interpreta Índia, uma conhecida guarânia paraguaia, cantada na versão em portugues, traduzida do original em castelhano de autoria de José Assunción Flor e Manuel Ortiz Guerrero.
Houve um tempo em que os bandidos mais temidos do Rio de Janeiro roubavam caminhões de leite e gás que se aventuravam nas favelas do subúrbio carioca para distribuir a mercadoria roubada entre seus moradores. A cena foi reconstituída recentemente no longa-metragem Cidade de Deus. No filme do diretor Fernando Meirelles, co-dirigido por Kátia Lund, os assaltantes do Trio Ternura aparecem distribuindo bujões de gás nas ruas do conjunto habitacional da Zona Oeste. Era início dos anos 60.
Contemporâneo de Mineirinho e Lúcio Flávio, Manoel Moreira, o Cara de Cavalo, era adepto dessa 'estratégia' Robin Hood de roubar dos ricos para dar aos pobres. O último romântico dos bandidos cariocas morou até os 16 anos na antiga favela do Esqueleto, onde hoje existe a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), no Maracanã (Zona Norte).
"Cara de Cavalo era um garoto levado mas tinha muita consideração com os moradores. O padrinho dele morava lá e ele vivia no Esqueleto. Quando a polícia estava por perto, ele sumia. Mas sempre aparecia novamente", lembra a dona-de-casa Cleonice Pereira da Silva, de 63 anos, que viveu no Esqueleto até 1962, quando a comunidade foi extinta e ela então se mudou para a Vila Kennedy, em Bangu.
Cara de Cavalo tinha ligações com o jogo do bicho e atuava principalmente na região da Grande Tijuca. Ele começou garoto realizando pequenos furtos e vendendo maconha na Central do Brasil. Depois se tornou cafetão na zona do meretrício. Apesar da fama, Cara de Cavalo não tinha em seu currículo ações espetaculares ou assassinatos cruéis. Era bem diferente dos bandidos figurões de hoje em dia. Ganhava dinheiro fácil percorrendo os pontos do bicho e recolhendo sua comissão. Isso até 1964, quando matou com um tiro de sua Colt 45 o temido detetive de origem francesa Milton de Oliveira Le Cocq, despertando a ira dos policiais da época.
Cara de Cavalo foi então caçado implacavelmente durante quatro meses, entre maio e agosto de 64. Cerca de 2 mil homens de todas as delegacias da cidade participaram da operação. Os detalhes da perseguição foram acompanhados diariamente pela imprensa carioca.
Cara de Cavalo tinha apenas 23 anos quando foi morto, com mais de cem tiros, no seu esconderijo perto de Cabo Frio, na estrada para Búzios. Entre os policiais que presenciaram os últimos momentos do bandido estavam Hélio Vígio, ex-diretor da Divisão Anti-Seqüestro, e Sivuca (depois eleito deputado estadual com o lema "bandido bom é bandido morto"). Segundo o laudo pericial da época, o bandido foi atingido por 52 tiros, sendo 25 somente na região do estômago. O corpo de Cara de Cavalo foi coberto com um cartaz com o símbolo da caveira com duas tíbias cruzadas e a inscrição EM (leia-se: Esquadrão da Morte).
O repórter policial Luarlindo Ernesto, que trabalhou muitos anos na editoria de polícia do Jornal do Brasil, e que acompanhou de perto a caçada ao bandido, declarou certa vez em entrevista ao livro Reportagem policial (Faculdade da Cidade, 1998):
"Outro assunto interessante foi o Cara de Cavalo, um bandido sem nenhuma importância que entrou no noticiário policial. Foi um mito construído pela imprensa, um bandido muquirana, tinha uma mulher na zona, assaltava ponto de bicho em Vila Isabel e fumava uma maconhazinha, não era um bandido de expressão. O azar dele foi que o banqueiro de bicho chamou os amigos policiais e pediu para eles darem um sumiço no cara. Os policiais foram dar uma dura e, naquela afobação de prendê-lo, um policial matou um colega. Botaram a culpa no Cara de Cavalo e isso motivou uma caçada implacável ao jovem bandido, que tinha apenas 23 anos. (....)
Depois da perseguição, ele ficou vivo apenas mais um mês ou dois. Lembro que, durante essa caçada, um dia fui com outro repórter, o Oscar, para o Morro do Juramento. Lá, consegui através de outro bandidão da época, o Murilão, chegar até o Cara de Cavalo. Mas o bandido queria mil cruzeiros para falar. Era muito dinheiro. No caixa da Última Hora só havia 600 contos, queria um milhão. Nada feito e ele aproveitou e fugiu, desaparecendo. Continuamos no caso, conseguimos botar uma espécie de empregada doméstica na casa da mãe dele. A mulher interceptou uma carta do Cara de Cavalo, localizamos o endereço do remetente, fomos atrás novamente. Chegamos a falar com ele, mas o bandido não quis nada. Numa dessas visitas, a polícia nos seguiu, foi lá e matou o Cara de Cavalo. A perseguição toda demorou um mês e meio, com mais baixas entre a polícia. Lembro do Le Cocq e do Perpétuo de Freitas, policial que foi morto por um colega nessa perseguição ao Cara de Cavalo".
Um ano após a morte de Le Cocq nascia no Rio a Scuderie Le Cocq, formada por policiais militares e civis que queriam vingar a morte do detetive. Um de seus presidentes foi o delegado Luiz Mariano, que anos depois afirmou ter dado o primeiro tiro em Cara de Cavalo.
A versão capixaba dos escudeiros, que foi montada em 1984 e se tornou sinônimo de grupo de extermínio, é acusada de quase dois mil homicídios, alguns deles envolvendo políticos do Espírito Santo.
Conforme documento da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), "as investigações revelaram a existência de uma associação criminosa que se dedica à prática de narcotráfico, controle de jogos ilícitos e homicídios; e cuja estratégia de ação consiste em controlar o funcionamento das instituições públicas, subverter a hierarquia funcional nas corporações policiais civil e militar, garantir a impunidade dos responsáveis pela prática do crime e substituir-se às instituições públicas".
A morte de Cara de Cavalo voltou a ser destaque na imprensa carioca quando o artista plástico Hélio Oiticica, que usou a marginalidade social, a repressão política e a revolta individual como tema de suas obras nos anos 60, homenageou o bandido com dois de seus trabalhos mais polêmicos. O primeiro foi um bólide (caixa de madeira, plástico ou vidro) com uma foto do bandido caído numa poça de sangue (foto acima) . Depois, criou um estandarte com a reprodução da foto e a inscrição: “Seja marginal, seja herói”.
Cara de Cavalo e Hélio Oiticica freqüentaram juntos rodas de samba em favelas cariocas. Sobre o amigo, Oiticica escreveu: "O crime é a busca desesperada da felicidade autêntica, em contraposição aos falsos valores sociais".
Assim como Oiticica, outros artistas dos anos 60 também usariam a bandidagem como inspiração para seus trabalhos. A glamurização do crime seria ainda beneficiada pelo cobertura sensacionalista da imprensa carioca.
A artista plástica Lygia Clark também falou sobre a bandidagem dos anos 60 e o tráfico de drogas nas favelas:
“Na nossa época (Lygia e Hélio Oiticica freqüentavam a Mangueira), o máximo que tinha era um pouco de maconha, de cheirinho-da-loló. Conheci o Mineirinho, a mulher dele, Maria Helena, e o Cara de Cavalo. Eram bandidos românticos. Poderiam até atirar num policial, o que significava que estariam jurados de morte. Mas você podia freqüentar o morro inteiro. Agora não, você não entra no morro se não tiver autorização do chefe da droga. O narcotráfico fez da favela uma coisa doente.
Trecho da entrevista de Hélio Oiticica sobre a obra "Homenagem a Cara-de-Cavalo":
“Conheci Cara de Cavalo pessoalmente e posso dizer que era meu amigo, mas para a sociedade ele era um inimigo público nº 1, procurado por crimes audaciosos e assaltos – o que me deixava perplexo era o contraste entre o que eu conhecia dele como amigo, alguém com quem eu conversava no contexto cotidiano tal como fazemos com qualquer pessoa, e a imagem feita pela sociedade, ou a maneira como seu comportamento atuava na sociedade e em todo mundo mais.
Esta homenagem é uma atitude anárquica contra todos os tipos de Forças Armadas: polícia, Exército etc. Eu faço poemas-protestos (em Capas e Caixas) que têm mais um sentido social, mas este para Cara de Cavalo reflete um importante momento ético, decisivo para mim, pois que reflete uma revolta individual contra cada tipo de um condicionamento social. Em outras palavras: violência é justificada como sentido de revolta, mas nunca como o de opressão”.
Texto publicado no Catálogo da exposição Whitechapel Experience.
Respeitar a Jesus não é ficar sem comer carne na Sexta-Feira Santa. É ir na rua é dar um prato de comida a uma criança que mora na rua. Boa Páscoa (aos que não são hipócritas)